#Crise? Que Crise? – Um álbum da banda inglesa Supertramp

Não, não estamos falando do Brasil. O papo aqui é sobre música, descobrir algumas curiosidades do álbum de 1975 da banda inglesa Supertramp, intitulado, “Crisis? What Crisis?”, o que nos parece bastante atual, passados 42 anos de seu lançamento.

A começar pela capa, o álbum do Supertramp instiga um segundo olhar a quem a contempla, de modo a refletir sobre o seu contexto: o que faria ali um homem, embaixo do guarda-sol, de óculos escuros, tomando um drink, ouvindo música, olhando para o nada, enquanto, o cenário em que ele está envolvido, é o pior possível, tudo esfumaçado, com fábricas, uma cidade sem cor e poluída. Que contraste. E, pasmem, o cara está tranquilo sem CELULAR. Em 1975, esse aparelho, gênero de primeira necessidade no mundo atual, ainda não existia. As crises, a que a banda se refere, são várias, e podem ser percebidas ao longo do disco, através das letras das músicas, tem a crise de comunicação, a crise de identidade religiosa, a crise moral por cobiçar uma mulher comprometida, e claro, uma boa crise existencial.

Situado no tempo e no espaço, essas crises inspiradoras do álbum, não arranham o cristal das que hoje, assolam o mundo moderno e globalizado. O admirável mundo novo é um lixo, muito pior que o que é mostrado na capa do álbum do Supertramp. Conectados à internet, através do celular, os chamados seres humanos, interagem com milhões de semelhantes ao redor do planeta, convencidos de que fizeram um milhão de amigos, de que saíram do anonimato e, que a tal de privacidade é uma bosta, portanto, que seja exposta. Nesse mundo das conexões, de alguma forma, qualquer um vira celebridade, mas todos se submetem à tirania do momento. Afinal, é preciso consumir tudo muito rapidamente, uma vez que, a obsolescência é instantânea e as memorias são atualizadas a cada clique. O “penso logo existo” é coisa do passado, o negócio no mundo digital é “apareço, logo existo”, não é possível ficar “de fora”: a solidão no mundo digital é implacável.

A internet criou os “solidários instantâneos”, uma vez que, toda catástrofe é transmitida a tempo real para a turma conectada, fazendo com que todos se sintam no centro da ação. Acontecimentos ruins aproximam as pessoas, ainda mais agora, em que “todos” estão no centro desses problemas, quer seja um barco que afunde com refugiados da Síria, um incêndio nas florestas de Portugal, um terremoto na Itália, um atentado numa boate em Paris. A dor dos conectados é carnavalesca, afinal, catástrofe é um evento programado para durar pouco, porque compaixão tem limite e, leva à fadiga. Uma pena, que este “estado divino”, de amor ao seu semelhante, seja mais um produto descartável deste mundo globalizado. É moderno, consumir de imediato, ter a memória atualizada, o que requer o esquecimento rápido, afinal, urge ter Gigas disponíveis para assistir à próxima atração.

O ser humano de hoje não tem mais passado, só o presente, afinal, a informação envelhece antes de ser absorvida. O passado é apagado, precisa dar mais espaço na memória dos ávidos pela próxima atração.  Os políticos modernos reescrevem o passado, uma forma mais avançada de manipular a opinião pública. O sonho de todo político é controlar o corpo e alma do cidadão, sem o exterminar fisicamente. Nesta missão, a mídia tem papel fundamental, seja através de seus noticiários repetitivos, das minisséries de conteúdo “histórico”, da ênfase dos desastres naturais às discussões infindáveis sobre todas as diferenças, sejam nas preferências sexuais, na cor da pele, no tipo dos cabelos, coisas que deveriam ser naturais, uma vez que, todas as espécies têm semelhanças e diferenças a compartilhar.  As modernas relações humanas, são feitas em bytes, tudo se exaure, não pode ocupar muito espaço. As fotos já não são “para sempre”, não enfeitam álbuns, e as lembranças duram apenas alguns segundos, são muitas as novidades, e elas precisam desse espaço.

A dor passa rápido, assim como a solidariedade. O abismo social leva muito tempo para aparecer, e isso não combina com o mundo digital. O moderno precisa das discussões estéreis, do consumo instantâneo, das calamidades transmitidas, dos relacionamentos não duráveis, todo esse conjunto que, combinado, transforma o ser humano num indivíduo moralmente insensível.

Como vocês podem ver, crise, que crise? Crise, nem no álbum do Supertramp.

John Harrison McCartney (#Francisco Gularte é Engenheiro Químico, com MBA em Finanças, Administração, Marketing e estudante de Direito na Universidade Estácio de Sá)     

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  1. Rodrigo Porto 20 de julho de 2017

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